domingo, 15 de agosto de 2010

Galeria de arte 10


Pleno esplendor
Raimundo Correia
 
Eu amo os gregos tipos de escultura:
Pagãos nús no mármore entalhados;
Não essas produções que a estufa escura
Das modas cria, tortas e enfezadas.
 

Quero um pleno esplendor, viço e frescura
Os corpos nus; as linhas onduladas
Livres: de carne exuberante e pura
Todas as saliências destacadas...
 

Não quero, o Eros opulento e belo
De luxuriantes formas, entrevê-lo
De transparente túnica através:
 

Quero vê-lo, sem pudor, sem receios,
Os braços nus, o dorso nu, detalhes
Nus... todo nú, da cabeça aos pés!
 

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O Fotógrafo

Galeria de Arte 9


Elogio da Nudez
Armindo Trevisan
 
Quando o vejo nu,
carne e tamanho apenas,
sofrendo a garra de algo
que não tenho, nem me afaga
 

Sinto por dentro um silencio
Que me deixa inda mais nu!
Quando te vejo nu
 

ao sol que me rói, parado
ao sal que me entra na vida,
ao ar que me desnuda a alma
 

Fico no mundo sem par,
Desejando me enterrar


Ah que desnudez faminta!
no banheiro, sobre o leito,
em qualquer parte do mundo,
onde se deixe tua roupa


É o próprio medo do homem,
que aparece sobre a pele
 

Mas é tão bom , delicioso
O jôrro de água, o unguento
O perfume, a relva, a seda
De outra carne inda mais nua
 

Que o terror é esquecido
Por um instante florido!
 

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O Fotógrafo

Galeria de arte 8


O homem nú
Juan Ramón Jiménez

Humano fonte belo,
repuxo de delícia entre as coisas,
terno, suave água redonda,
homem nú: um dia,
deixarei de te ver,
e terás de ficar
 

sem estes assombrados olhos meus,
que completavam tua beleza plena,
com a insaciável plenitude do seu olhar?


(Estios; verdes frondas,
águas entre as flores,
luas alegres sobre o corpo,
calor e amor, homem nú!)


Limite exacto da vida,
perfeito continente,
harmonia formada, único fim,
definição real da beleza 
 

homem nú: um dia,
quebrar-se-á a minha linha de homem,
terei que difundir-me
na natureza abstrata;
 

não serei nada para ti,
árvore universal de folhas perenes,
concreta eternidade!
 

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O Fotógrafo

sábado, 14 de agosto de 2010

Galeria de arte 7


A alma e o corpo da poesia

Poesia é algo que vem de dentro
Desponta do fundo da alma
Traduz valores, desejos, sentimentos
 

É uma mistura de encanto e desalento
É a nudez do que está oculto
É a descoberta de si mesmo
É o esmero da vida e do luto
 

Poesia é arte, é coisa fina
É o abrir da densa cortina
Que cobre o âmago do ser
É o despertar do que está adormecido


É aquilo que não se pode entender
Sem o olhar que alcança o horizonte
Sem a curiosidade peculiar dos infantes
Sem a inquietude dos jovens
Sem o borbulhar dos amantes
 

Poesia é devaneio, sonho e beleza
É encontro programado , é também surpresa
Poesia é dor e prazer
Palco de sombras e luzes... incerteza
 

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O Fotógrafo

Galeria de arte 6


BANDOLIM do ESFOMEADO

Cuidado, meu amor, o perigo ronda
os caminhos, as passagens secretas
em breve infestadas de espias,
saiamos pelos jardins, nus somos invisíveis, ora!
 

É estranho este tempo - falsos bruxos
comandam sacrifícios, se os céus calaram
o melhor é buscar abrigo pois a chuva
é inclemente quando incauto o mendigo.


Longe a estrada apresenta além do medo,
presságios, o cavalo reina aonde o homem fértil
era solitário, agora entendo o bandolim do esfomeado
saiamos pelos jardins, nus somos invisíveis, ora!
 

tua rosa encharcada é a coroa de uma libélula que estende
as asas de anjo sussurrando nos átomos inchassos de chamas
saiamos pelos jardins, nus somos invisíveis, ora!



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O Fotógrafo

Galeria de arte 5


UM HOMEM NU
É UMA PAISAGEM BEM-VINDA

Os homens nus são criatura de chama,
ouriços que ao girar súbito prendem o ar
com vozes de sua luz cutânea e ágil.
São hologramas de sonho,
generosos bebedouros,
escarchas que permanecem nas mãos.
 

Os homens nus são medicinais,
antidepressivos, analgésicos;
e bons argumentos contra o suicídio
ou para questionar a Lei da gravidade.
Por suas virtudes ígneas
imprimem nos lençóis a assinatura corporal
(como em Turim, perguntem a Magdala).
São doces e angulosos, são arquivos históricos,
alfabetos em célula, cisnes de pescoço impune,
casas onde viver;
criminosos absolvidos.
 

Da transparência de seu almíscar
poderia viver,
e do sangue claro de seus verbos.
Que ninguém se ofenda se digo que são bons de cama,
que não há almofadas sem seu ventre,
que sou toda uma vítima do veludo,
porque um home nu é como um livro.
Adoro apalpar sua espalda,
examinar ao azar sua pele de página
letra por beijo, abraço por palavra,
e respirá-lo como se fosse feito de oxigênio.
É uma dádiva estética
uma inevitável filmagem de pupila,
também um vaso de saudades antecipadas.
E seus dedos, seus dedos,
um incenso que nunca termina.
 

Belos são os homens se despidos,
se visíveis, quando na escuridão.
Por seus lunares nascem novas mitologias,
e eles dão nome às estrelas.
Belos se caminham, se estão quietos,
ainda mais se dormidos;
para ver-te melhor
querido lenço.
 

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O Fotógrafo
 

domingo, 8 de agosto de 2010

Galeria de arte 4

TUA NUDEZ
Paulo Franco

Tua nudez passeando pela casa
Faz de mim expectador de toda beleza.
 

Teus pés pisam o chão com tanta ternura,
Que chego a sentir ciúme dele!
Passo em passo, pela casa, nas pontas dos dedos,
Revelas o salto alto de um sapato imaginário
Que desfila para a procissão dos meus olhos
Tua sântica imagem corporal.
 

Quando passas por mim, belo e sensual,
Sinto-me cada vez mais teu devoto
Oblata da liturgia do teu corpo
Fiel adorador da tua beleza
Capaz de pagar todos os dízimos
 

Ficar a esmo como qualquer mendigo
Só não quero ficar sem o pão da tua sacristia:
Teu corpo, vinho e hóstia, meu alimento.
 

Tua nudez passeando pela casa
Faz de mim expectador de toda pureza.
 

Músculos carnudos e arredondados
Que pouco a pouco vão sendo revelados
São como prenúncios de desvelos segredados
Véus, como nuvens, descortinam tuas curvas:
Pernas fortes; serpenteadas de volúpias,
Dobram-me em oração quando me enlaçam!


Dão-me nós inquebrantáveis quando me abraçam
Deixando meu corpo submisso ao suplício
Ternura agônica sem qualquer sacrifício
Vou-me rendendo, aos pouquinhos, como Tântalo
Quando já quase louco quer a bebida e fruto do teu corpo
 

Insuperável alimento que produz o teu horto
Jardim das Oliveiras de todos os meus gozos
Terra da minha condenação!
Sou teu cristo: aceito a crucificação.
 

Tua nudez passeando pela casa
Faz de mim um expectador de toda singeleza.
 

Tuas coxas! Sinfonia do equilíbrio do universo!
Sustentam o sacrário de toda procriação
Guardam e segredam a mais pura flor de lótus
Donde toda espiritualidade nasce em profusão
Tuas coxas! Colunas que sustentam eternidade
 

Igreja de Lakshmi – a deusa da prosperidade –
Caminho que me conduz ao princípio do ser
Oráculo de raiares de sóis a cada amanhecer.
Venero-te quando me prendes ao teu eixo
Quando me ofereces à flor no mais puro beijo
Quando me pedes, qual zangão, para ungir o teu mel
 

Quando nos tornamos um no alvéolo sagrado do amor
Quando me tiras do corpo todo amargo do fel
Quando tatuas em mim, do teu gozo, todo odor.
 

Tua nudez passeando pela casa
Faz de mim um expectador de toda clareza.
 

Teu peito! Cristais que emolduram teu ser!
Vênus, por certo, de ti sentiria ciúme
A Zeus trataria de fazer queixume
Ao ver tanta perfeição no teu peito robusto
 

Também são fontes de enlaçaduras
Ondas que levam meu sexo às loucuras
Quando nos amamos sem quaisquer discrepâncias
Teus seios subjugam minha boca
Seduzem minha língua à presteza de todo carinho
Arrancando de ti frêmitos e loucos gemidos
 

Teus braços quando tocam em meu corpo
Dá-me uma vontade louca de nos querermos mortos
Para nos perdermos na eternidade sem sentidos
 

Tua nudez passeando pela casa
Faz de mim um expectador de toda grandeza.
 

Tua boca! Ah, como é quente tua boca!
Ela não precisa de palavras para falar de sentimento
Di-lo, com a força de um beijo, sem qualquer ressentimento
Todo amor mais profundo que, porventura, sufoca
Tua boca me lambe… Me beija… Me come
 
Me vira do avesso… Me faz ver estrelas… Me instala no céu
Transforma meu corpo num verdadeiro fogaréu
Tua boca me cala… Me fala… Me grita… Me consome…
Ah! Tua boca diz ao meu corpo o instante do gozo
Mas, teimosa insiste e palpita dentro de mim
Regaça minha razão… Floresce minha paixão…
 

Tua boca grita: “Não! Não paremos agora…
A sinfonia ainda não acabou! Dancemos…
Há tempo, muito tempo ainda para o amor.”
 

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O Fotógrafo